segunda-feira, fevereiro 12, 2007

KK: Capítulo VII

Capítulo VII


- Vamos testá-lo hoje? Mesmo com esse impecílio?
- Sim. Também temos nossas cartas na manga.

No dia seguinte, assim que acordei, troquei de roupa e passei pelo corredor em direção à porta. Ia até casa dos meus pais, para então seguirmos ao ritual em homenagem à Karbon. Mas antes que eu pudesse abrir a porta, ouvi uma pergunta apressada, vinda do quarto de Henri, que até então estava dormindo: "Ei, vai mesmo participar daquela palhaçada?"

- Vou. - e fui próximo à porta - Dorme ai, tá muito cedo. Depois trago alguma coisa pra gente comer.
- Beleza.

Então saí e fui caminhando até a casa dos meus pais. No inicio, eu pensei que tinha chegado muito cedo, porque ainda estava tudo trancado. Esperei uns quinze minutos e nada. Aí eu resolvi chamar, chamei três vezes, até que a minha mãe surgiu na janela, e apertando os olhos para me enxergar, disse:

- O que está fazendo aqui, filho?
- Mãe! Se esqueceu do ritual?
- O ritual?! Kael, não leu o jornal de ontem?
- Não. O que houve?
- Espera, vou abrir a porta pra você - então saiu da janela e destrancou a porta - Vem tomar um café que eu te explico.

Enquanto fazia o café, me explicou que o Rei Dante havia proibido a execução do ritual por causa do tempo. O ar estava seco demais e a previsão era de vento forte. Portanto, segundo essa lógica, fogueiras à luz do sol poderiam causar uma tragédia das grandes em Osaforte. Vai ver o rei pensava que seu povo era burro o suficiente para acreditar nisso. Só resta saber o que levaria um rei a impedir uma manifestação religiosa que o povo sempre fez questão de manter.

- Que estranho...
- E ainda colocaram guardas por toda a cidade para impedir que alguém tente. Não é algo que dê para fazer escondido, por causa da fumaça. E como isso foi avisado apenas ontem, a única saída foi cancelar. Filho, coma esse pão recheado, fiz ontem à noite, está uma delícia.
- Ah, tá. Mas o ar não está tão seco assim. É o clima normal daqui de Osaforte. Proibíram o ritual apenas nessa região?
- Sim, só por aqui. Sempre disse a seu pai que esse rei era louco. Onde já se viu, proibir o ritual de Karbon...
- Pois é, nunca fizeram isso antes.

Meu pai acordou em seguida. Fiquei algum tempo ali conversando com eles e então fui embora. As ruas da cidade estavam desertas, essa proibição do ritual mais se assemelhou a um toque de recolher e com certeza causaria má impressão. Para o povo daqui, o ritual de Karbon tem a mesma importância de um casamento, de um batizado ou de uma iniciação. Enquanto voltava, avistei dois guardas imperiais que corriam na direção de uma nuvem de fumaça. Provavelmente, alguém tentara executar o ritual. Consegui ouvir gritos e um som característico e agudo de magia defensiva. Próximo da avenida, vi mais alguns guardas apressados que faziam sinais com as mãos. Porém, antes que alguns deles desaparecessem de vista, a fumaça parou. Com certeza, outros guardas já haviam impedido a tentativa. No entanto, algo muito estranho aconteceu: um arbusto que estava atrás de mim, próximo ao portão de uma casa do bairro, escureceu, murchou e então pegou fogo. Mas era um fogo diferente, mais dourado e linear. Saí correndo dali, antes que algum guarda visse e pensasse que era eu o responsável por mais uma fogueira.

Mesmo depois de correr muito, ainda vi faíscas saindo de uma lixeira e dos fios de energia, suspensos nos postes. Felizmente não encontrei mais nenhum guarda pelo caminho. Quando finalmente chegava em casa, segurando em uma das mãos um saco com os pães recheados que a minha mãe havia mandando para o Henri, notei que o portão de casa estava aberto. Ainda não havia alcançado o portão, quando Rágoas veio correndo fechá-lo e olhou para o lado, então me viu.

- Kael?! - exclamou, surpreso.
- O que está fazendo aqui, Rágoas?
- Fica calmo, Kael. Eu vim com...espera!
- Já estou cheio disso, vocês escondem tudo de mim - disse enquanto entrava em casa, imaginando o que poderia estar acontecendo - Eu mesmo descubro.
- Kael! Espera, por favor!

Abri a porta e não havia nada na sala. Então ouvi alguns ruídos na direção da cozinha e resolvi ir até lá checar. A porta estava encostada e quando a abri, presenciei a cena mais improvável que poderia imaginar.

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